28/01/2026
Tarifaço dos EUA impactou desempenho no segundo semestre; setor entra em 2026 num ambiente de reconfiguração comercial e novas dinâmicas de mercado
O ano se inicia em um ambiente de negócios mais denso e tecnicamente complexo, marcado por reconfigurações na geopolítica internacional, novas dinâmicas comerciais e pressões estruturais sobre as cadeias produtivas ao redor do mundo.
No acumulado de janeiro a dezembro de 2025, as exportações brasileiras de móveis e colchões somaram US$ 769,3 milhões, registrando crescimento de 0,8% frente a 2024.
Apesar do resultado positivo, o dado ficou muito aquém das expectativas iniciais, que giravam em torno de +2,5%, confirmando a perda de fôlego na reta final do ano:
O movimento indica desaceleração após o fim da antecipação de embarques observada no início do segundo semestre — antes da entrada em vigor do “Tarifaço” americano —, sinalizando também o esgotamento de estímulos conjunturais, maior cautela nos fluxos comerciais e a necessidade de uma estratégia estruturada de internacionalização.
Nesse contexto, o mercado americano permanece como variável crítica. A ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) acompanha com atenção a iminente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a constitucionalidade das tarifas de até 50% aplicadas a produtos importados do Brasil, entre eles o mobiliário.
O setor chega a este momento após um ano de ajuste forçado, marcado por interrupção de contratos, paralisações produtivas, desligamentos, aumento de estoques e readequações financeiras motivadas pelo tarifaço.
Dessa forma, apesar de seguirem como principal destino das exportações brasileiras de móveis, a participação dos Estados Unidos nos embarques do setor caiu significativamente em 2025, finalizando o ano com marketshare de 23,5%, após anos operando próximo ou acima de 30%.
Importante também destacar a assimetria do impacto: enquanto o Brasil representa menos de 1% das importações totais de móveis dos EUA (o que não compromete ou ameaça a indústria americana), para muitas empresas brasileiras o país concentra a maior parte de suas exportações, com casos que variam de 30% até 100%.
Por outro lado, há um sinal positivo no curto prazo: o governo dos Estados Unidos decidiu adiar para janeiro de 2027 o aumento das sobretaxas aplicadas a determinados produtos de madeira e seus derivados, incluindo madeira serrada, painéis de madeira, mobiliário estofado, armários de cozinha e gabinetes de banheiro. Com isso, ao longo de 2026 permanecem vigentes alíquotas entre 10% e 25% para a maior parte dessas categorias.
O adiamento reduz, momentaneamente, o risco de um novo choque tarifário, mas não representa normalização das condições de acesso ao mercado. A possibilidade de aplicação futura de sobretaxas mais elevadas segue condicionada tanto à deliberação da Suprema Corte americana quanto ao avanço das negociações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Nesse sentido, ainda, a ABIMÓVEL em parceria com a BMJ Consultores Associados, sob liderança do Dr. Welber Barral, vem colaborando de forma técnica com o Governo Federal e no diálogo institucional com Washington para ações fundamentadas com vista à exclusão do setor das tarifas ou, ao menos, à redução para patamares inferiores a 15%.
Tal situação também reforça a percepção de risco concentrado em um único mercado, o que mantém a prospecção ativa especialmente na América do Sul, Europa, Oriente Médio e Ásia, mesmo em um cenário favorável nos EUA.
Outra preocupação, porém, é que o movimento iniciado por lá crie precedentes para que outros países adotem medidas semelhantes, assim como ocorreu com o México, ampliando, então, o grau de restrição ao comércio internacional de bens industriais e afetando a curto e médio prazo a capacidade de redirecionamento das exportações brasileiras.
“Independentemente da decisão da Suprema Corte americana, o comércio exterior no setor já opera sob um novo paradigma: mais fragmentado, mais regulado e menos previsível. A eventual queda das tarifas pode acelerar a estabilização, mas não eliminaria a necessidade de diversificação de mercados, fortalecimento da competitividade industrial e coordenação entre política comercial, econômica e industrial”, reforça Cândida Cervieri, diretora-executiva da ABIMÓVEL e gerente do Projeto Setorial Brazilian Furniture, em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).
Ainda no plano externo, o Acordo Mercosul-União Europeia se projeta como um dos movimentos mais relevantes do comércio exterior neste momento, tendo potencial de ampliar o acesso do Brasil a um dos maiores mercados consumidores de móveis do mundo.
Após mais de 25 anos de negociações, a assinatura oficial do acordo ocorreu no último dia 17 de janeiro, envolvendo dois blocos que somam cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões.
Para a indústria brasileira de móveis, o acordo assume caráter estratégico no contexto de reposicionamento internacional. Em 2025, a União Europeia respondeu por 9,3% das exportações brasileiras de móveis e colchões, em ritmo ascendente.
Com o tratado, estudos preliminares da ABIMÓVEL e do IEMI indicam potencial de crescimento adicional de até 20% já no primeiro ano de vigência.
Contudo, o processo enfrenta entraves institucionais: o Parlamento Europeu acionou a Corte de Justiça da União Europeia para avaliação jurídica do tratado, suspendendo a votação final e podendo postergar sua ratificação por até 24 meses.
Diante de todas essas dinâmicas, o ano de 2026 inaugura um novo cenário de organização estratégica para o setor de móveis no Brasil. A combinação entre ajustes no ambiente internacional e a perda de fricção no mercado doméstico desloca o foco das empresas para um crescimento mais cauteloso e estruturado.
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ABIMÓVEL – Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário
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